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13/02/20 - 21h18 - atualizada em 13/02/20 às 21h36

Cidade da Criança encerra atividades na modalidade abrigo, depois de 28 anos

Entidade continua em funcionamento com o programa de contraturno

Edilson Kernicki, com reportagem de Paulo Henrique Sava e Rodrigo Zub 

Coordenadora administrativa da Cidade da Criança, Tatiane Maria Horst Cardoso, e a advogada voluntária da instituição, Tânia Marina Vicente Leite, falaram sobre a situação financeira da entidade durante participação no programa "Meio Dia em Notícias" da Super Najuá

A Cidade da Criança de Irati, entidade situada no bairro Alto da Lagoa, encerrou suas atividades na modalidade abrigo no início do mês de fevereiro. A decisão foi comunicada ao Ministério Público e à Vara de Infância e Juventude, através de seu representante legal, Renato Pachude, no dia 3. No comunicado, ele solicitava o remanejamento dos sete menores que ainda viviam na instituição para a Casa Lar Municipal.

Entre os fatores que culminaram no encerramento da modalidade abrigo, estão a falta de recursos financeiros e humanos, as mudanças na legislação sobre o serviço de acolhimento no Brasil e a complexidade dos acolhimentos. Hoje, a instituição vive de doações da comunidade; eventos beneficentes – chás, jantares, pasteladas e rifas; uma subvenção municipal de R$ 11 mil mensais e doações anuais da concessionária Caminhos do Paraná, através do Imposto de Renda.

“Foi uma decisão difícil que a diretoria da Cidade da Criança tomou. A instituição vinha passando por dificuldades financeiras há um ano, dois anos, por aí e se tornou insustentável a situação do abrigo, que funcionava 24 horas e não parávamos. Tem que ter uma equipe técnica multidisciplinar, mães sociais residindo no espaço. Com o auxílio que recebemos do município de Irati, não estávamos conseguindo fechar essa conta”, relata a coordenadora administrativa da instituição, Tatiane Maria Horst Cardoso. Ela acrescenta que, mesmo que a entidade continuasse a promover eventos para arrecadação de fundos, não seria suficiente para honrar os compromissos.

A entidade vai manter o Projeto Convívio Fraterno, que existe há cerca de 18 anos, e promove atividades no contraturno escolar e continuará com oficinas terapêuticas e educativas. O projeto já atendeu cerca de 1.500 crianças e adolescentes desde foi criado. “Vamos continuar com a proteção básica, que é o serviço preventivo, que deveria ser muito priorizado pelas políticas públicas. Pois o trabalho de abrigo vemos como algo corretivo. Se a criança vai para um abrigo, quer dizer que a proteção básica, a prevenção, falhou em algum local. Alguém dessa rede [de proteção] acabou falhando. Nosso objetivo é tornar esse trabalho quantitativo, com eficiência, qualidade e continuar o atendimento às crianças dos bairros Alto da Lagoa e Jardim das Américas”, pontua.

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A despesa mensal da Cidade da Criança para manter o projeto de contraturno, que atende a 50 crianças, mais o abrigo, que atendia a sete crianças, era de R$ 35 mil a R$ 40 mil. A subvenção recebida do município, de R$ 11 mil mensais, será mantida, conforme já garantiu o prefeito Jorge Derbli. “Esses R$ 11 mil saem da arrecadação livre do município, não é um recurso que a Secretaria de Assistência Social destina. É um recurso que conta muito com a boa-vontade do prefeito e da Câmara de Vereadores, porque eles precisam aprovar. Recebemos desde a gestão do [ex-prefeito Sérgio] Stoklos; depois, o Odilon [Burgath] manteve e o Jorge [Derbli], também. Com a subvenção, os eventos que fazíamos e outras parcerias, não conseguiríamos alcançar esse valor”, diz.

Segundo Tatiane, há uma tendência para que os abrigos sejam extintos no Brasil dentro de alguns anos. Ela menciona que a referência atual tem sido o trabalho desenvolvido em países da Europa, com as “famílias acolhedoras”. “Nossa população já está começando a se engajar com essa nomenclatura e é um dos objetivos do governo federal desinstitucionalizar, ou seja, enquanto a criança aguarda seu processo ser julgado, até ir para uma adoção, em vez de ir para um abrigo ou uma Casa Lar, ela deve ir para uma família acolhedora. O município já formalizou, já existe o programa e acredito que eles já estejam preparando e selecionando as famílias para poder, de fato, dar continuidade à família acolhedora”, explica.

Cidade da Criança não vai abrigar mais crianças. Instituição ofertará oficinas e contraturno

A coordenadora administrativa da Cidade da Criança menciona que o encerramento do abrigo vai desencadear algumas demissões, como das cuidadoras. “Já estamos sem psicóloga há algum tempo, o que é um agravante. É preciso ter um psicólogo, um assistente social e já estamos sem desde dezembro. Não conseguimos contratar uma nova psicóloga. Haverá, com certeza, essa diminuição bem significativa no quadro de funcionários, até mesmo porque é algo que pesa muito no financeiro da instituição”, argumenta. Até o final do ano passado, eram 12 funcionários, agora são oito.

Ela também cita que houve uma mudança no panorama da instituição desde seu surgimento até agora. As demandas eram diferentes nas primeiras duas décadas da entidade – anos 1990 e anos 2000. “Acolhia-se muito por pobreza, fome, miséria e hoje, não. O número de acolhimentos também não é tão elevado. Nós, na instituição, percebemos essa diminuição. No momento, estamos com sete acolhidos. Essa complexidade dos acolhimentos hoje é uma coisa que exige muito de recursos humanos, principalmente, e financeiros, porque hoje você não acolhe porque a criança é pobre e passa fome. Hoje, quando se acolhe, é a última instância, a última tentativa, já foram esgotadas todas as possibilidades para tirar uma criança do pai, da mãe ou de com quem quer que ela esteja. Por isso os acolhimentos já são enquadrados dentro das políticas do SUAS (Sistema Único de Assistência Social) como alta complexidade, porque é difícil, são problemas fisiológicos, patológicos, neurológicos, além de traumas, são casos bem difíceis mesmo. Ano passado, passou pela instituição, na modalidade abrigo, aproximadamente 25 crianças. Em contrapartida, no projeto de contraturno atendemos 65”, detalha Tatiane.

Em 28 anos, perto de 450 crianças e adolescentes foram abrigados na Cidade da Criança, que foi fundada em julho de 1992, pelos padres diocesanos Isaías e Abraão, em parceria com um grupo de cristãos benfeitores da Alemanha.

Convívio Fraterno – Contraturno

O projeto Convívio Fraterno, que atende crianças no contraturno, está com matrículas abertas durante esta semana. Foram disponibilizadas 50 vagas, para crianças de cinco a 12 anos. As atividades começam já na próxima segunda-feira (17). O contraturno funciona de segunda a sexta, das 8h às 16h30.

Além do projeto do contraturno, serão oferecidas algumas oficinas de curta duração. A instituição trabalha em parceria com o Instituto Federal do Paraná (IFPR), com o Projeto Inclusão Digital. Nas sextas, alunos do IFPR vão até a instituição dar aulas para as crianças.

“Teremos oficina de ioga, de dança, de esporte e vamos divulgar a faixa etária e a quantidade de vagas para essas demais oficinas. A previsão é de que algumas se iniciem em março e outras em abril”, explica Tatiane.

Doações de alimentos para o fornecimento de refeições para as crianças atendidas pela instituição no contraturno, ou de roupas para serem vendidas em bazares, por exemplo, são sempre bem-vindas. Voluntários que pretendem ministrar oficinas para o projeto de contraturno também estão sendo requisitados. A instituição fica na Rua João de Barro, 105 – Alto da Lagoa. O telefone para contato é o (42) 3423-1305, em horário comercial.


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