Irati e Região / Notícias

05/01/19 - 11h57 - atualizada em 05/01/19 às 13h31

Motorista relata como superou gravíssimo acidente em SC

Após uma colisão na BR-280, em Canoinhas (SC), Cristiano Kuller foi parar debaixo do pneu do ônibus

Da redação, com reportagem de Paulo Henrique Sava 

cristiano Kuller conta que pensou várias vezes em desistir do tratamento, mas voltou atrás

O ano de 2018 desafiou o motorista de ônibus Cristiano Kuller a superar as consequências de um gravíssimo acidente que ele sofreu, na BR-280, em Canoinhas (SC). Ele e um colega se alternavam na condução do ônibus. Num momento em que Cristiano se levantava, o ônibus bateu. Com o choque, ele foi ejetado a 15 metros de distância, caiu de bruços na pista e acabou sob o pneu do ônibus.

O acidente ocorreu no dia 23 de janeiro, por volta das 3h da manhã, durante uma excursão a Porto Alegre (RS). Cristiano trabalhava numa viação da região. “Na hora em que levantei para ir ao banheiro, outro veículo invadiu a pista contrária”, diz. Segundo ele, o outro motorista ainda tentou evitar a colisão, porém o condutor do veículo que vinha na direção contrária veio ainda mais para o lado do ônibus. Os dois ocupantes do automóvel, um homem e uma mulher, tiveram morte instantânea.

“Caí entre o acostamento e a estrada e o ônibus ficou sobre as minhas costas. Permaneci ali por mais ou menos meia hora até que o socorro chegasse”, conta. Cristiano estava acordado durante todo esse tempo. Segundo ele, numa circunstância assim, a pessoa faz um grande exame de consciência, revisando os erros e acertos do passado.

Você lembra da sua família e a quer presente porque, em situações assim, precisamos desse apoio. É um momento de dor e de sofrimento, mas [sobreviver] foi uma coisa de Deus, porque não tem outra explicação

Cristiano Kuller

PUBLICIDADE

Com seu bom humor, Cristiano atribui à forma física o fato de o ônibus parar em cima dele em vez de passar por cima:

Onde eu parei e onde o ônibus ficou, às vezes até brinco que o ônibus não conseguiu passar por cima porque sou meio gordinho; então, ele não conseguiu vencer a subida e não foi para a frente

Cristiano Kuller


Aliás, para ele, é esse bom humor o segredo para ter suportado a dor. O motorista permaneceu internado durante 75 dias no Hospital Evangélico, em Curitiba, onde foi submetido a 35 cirurgias. No acidente, Cristiano fraturou três vértebras e até hoje ele faz trabalho de reabilitação.

“E essas três vértebras que foram fraturadas, até um médico daqui de Irati disse que eu poderia ficar paraplégico. Ele falou que foi um milagre, pois são poucas as pessoas a quem acontece isso, de chegar a quebrar uma vértebra e conseguir voltar a andar”, acrescenta.

PUBLICIDADE

Outro elemento que Cristiano considera fundamental para sua recuperação foi o apoio da família e dos amigos que recebeu não só ao longo dos 75 dias que permaneceu internado como pelos dias que seguiram desde que recebeu alta hospitalar até hoje, com suas palavras de incentivo e orações. “Muitas vezes pensei em desistir, por estar acamado, sem poder fazer nada e dependendo dos outros é uma situação muito difícil”, comenta.

“Cheguei em casa só em 9 de abril, e ainda não tinha levantado da cama, não conseguia fazer nada. Pois, durante esses 75 dias, perdi todos os movimentos da perna e não consegui levantar, ficar em pé. Quando cheguei em casa, comecei a andar com andador, meus irmãos davam banho em mim, aí que começou a ‘cair a ficha’, pois antes estava anestesiado, tomava calmantes e antidepressivos direto”, afirma.

PUBLICIDADE

Experiência de Quase-Morte (EQM)

Cristiano também considera que a sorte estava a seu favor pelo fato de que uma ambulância do SAMU seguia viagem logo atrás do ônibus. Devido ao peso sobre o corpo, o motorista sentia dificuldade para respirar, enquanto aguardava socorro do Corpo de Bombeiros, que o retirou de baixo do veículo. “Depois do acidente, acho que deu uns cinco ou sei minutos e ela [a ambulância] chegou. Até ela chegar, eu apaguei por um minuto. Estava naquele lugar, com muita dor e dificuldade para respirar. Num momento, senti como se saísse do corpo e estava ao lado do ônibus, todo o pessoal em volta, que eram os passageiros e eu olhava para mim debaixo do ônibus, já sem nenhuma dor, sem sentir nada. Olhava todo mundo em volta, mas não sabia o que estava acontecendo”, alega.

Cristiano ficou debaixo do pneu do ônibus após um acidente na rodovia BR 280, em Canoinhas-SC, no final de janeiro de 2018

Estudiosos chamam essa sensação de “experiência de quase-morte” (EQM), algo que a ciência ainda não explica por completo, mas que se caracteriza por um conjunto de visões ou sensações comumente associadas a situações de morte iminente, sendo as mais divulgadas a projeção da consciência – como relata Cristiano, a “sensação de serenidade” e a “experiência do túnel”. “Nesse momento, veio uma luz branca na minha direção. Na hora que eu acordei, o pessoal já estava fazendo a parte respiratória [reanimação]”, diz. Essa “luz branca” seria a experiência do túnel.

Enquanto os bombeiros tentavam retirar Cristiano de baixo do ônibus, o macaco usado para erguer o veículo escorregou duas vezes no óleo que ficou sobre a pista, resultado da colisão com o carro, fazendo com que a vítima sentisse o peso do ônibus sobre o corpo mais duas vezes. “Foi um momento em que senti muita dor, quando o ônibus caiu mais duas vezes sobre mim”, relata.

PUBLICIDADE

Tratamento

Desde o acidente até agora, Cristiano gastou cerca de R$ 12 mil em tratamento, parte dele custeado pela empresa de ônibus. Os gastos certificados com nota fiscal que estão com Cristiano somam em torno de R$ 8 mil. A cada visita ao médico, são pelo menos R$ 500 reais em medicamentos.

Cristiano está usando colete ortopédico, devido à lesão na coluna, e tem feito sessões de hidroginástica para sua reabilitação.

Grande parte do tratamento foi custeado pelo SUS. Segundo Cristiano, se tivesse que pagar do próprio bolso, cada dia na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) custaria cerca de R$ 10 mil. Além disso, das 35 operações que fez, muitas foram cirurgias plásticas reconstitutivas, que encareceriam o tratamento se fossem custeadas por ele.

PUBLICIDADE

Fé e alegria

“Vemos muitas pessoas que enfrentam um câncer, uma leucemia, alguma doença grave. A doença quer que você se entregue. Em momento algum, quando eu estava no hospital, me entreguei. Sempre conversava e brincava com as enfermeiras, ou mesmo em família, e dávamos risada. A alegria é muito mais importante do que se entregar. Quando você se entrega para a doença, ela vem e, infelizmente, te ‘abraça’ para tentar te derrubar. Para as pessoas que têm qualquer doença, meu conselho é: seja mais extrovertido, aproveite a vida, faça o tratamento. Eu sou uma prova viva; tudo o que aconteceu comigo foi uma superação. Tudo o que aconteceu comigo foi algo que Deus destinou, mas agora estou me recuperando. Há poucos dias fui ao médico e ele até já me liberou para começar a trabalhar”, comemora.

Quer receber notícias locais? Envie whats para 42 991135618 SIM NOTICIAS ou cadastre seu e-mail na newsletter pelo site da Najuá 

Comentários

Enquete

Educação sexual tem de ser discutida na escola?

  • não
  • sim
Resultados