Matérias / Irati de Todos Nós

18/09/11 - 22h02 - atualizada em 18/09/11 às 22h12

O caminho das tropas

O Programa Irati de Todos Nós é idealizado por José Maria Grácia de Araújo e vai ao ar pela Najuá AM, todos os sábados, às 14 horas

O assunto que trago para esta tarde é, sem duvidas, muito interessante, como também, muito relacionado com a historia do nosso querido município de Irati.
Vou falar hoje sobre a provável a origem do nome dado a nossa cidade, nos tempos que antecederam a sua atual denominação – IRATI – Nosso caudaloso RIO DE MEL.

Todos sabemos que no passado nossa cidade era conhecida como COVALZINHO que, segundo conta-se, devido a que muitas das famílias que aqui residiam cultivarem pequenas plantações de couve que eram muito apreciadas pelos TROPEIROS que por aqui transitavam.

Somente, por volta do final do século XIX, com a chegada dos trilhos da estrada de ferro é que a denominação COVALZINHO foi substituída por IRATI, que na língua indígena significa Rio de Mel. Bem, mais esse trecho da nossa historia, tenho certeza, todos vocês, nossos ouvintes, já conhecem perfeitamente.

O que muitos, talvez, desconheçam é que, no passado, IRATI também fazia parte do tradicional CAMINHO DAS TROPAS. Na verdade era um caminho alternativo, mas nem por isso deixa de ser, historicamente, muito importante.

Segundo o escritor e folclorista BARBOSA LESSA, nos meados do século XVIII, 1750 aproximadamente, as primeiras TROPAS entravam no território brasileiro, vindas do Uruguai. Do Chuí no Rio Grande do Sul, seguiam para até Torres, dai rumavam para Lajes em Santa Catarina, adentrando, então, em território paranaense, pela cidade de Palmas. Desta cidade seguiam até União da Vitória, donde se apresentavam duas alternativas para seguirem viajem. O caminho oficial das tropas era percorrido de União da Vitória a São Mateus do Sul, Palmeira, Ponta Grossa, Castro, e daí seguindo para Sorocaba, em território paulista, e de lá para o estado de Minas Gerais. No, entanto, a exemplo da localidade de Registro de Santa Vitória R.S., também conhecido como Passo as Guarda, onde a Coroa Portuguesa mantinha um posto de arrecadação de tributos, que era como se fosse um antepassado dos atuais postos de fiscalização. Já naquela época, como nos dias de hoje fazem os caminhoneiros, as tropeadas, a fim de burlarem a fiscalização, criavam caminhos alternativos.

IRATI se encontrava em uma rota alternativa, que vinda de União da Vitória desviava São Mateus, onde existia um desses postos de cobrança de tributos, passava por nossa cidade, seguindo até Palmeira retornando então ao itinerário normal das Tropas.

Essa prática se repetia por todo o trajeto das tropas, que era pontilhado de barreiras do erário. Por isso, além do caminho costumeiro as tropas eram obrigadas a descobrirem alternativas menos onerosas, que foi o caso de IRATI, que mesmo não fazendo parte da rota principal, também era visitado por TROPAS e tropeiros solitários.

Mais de uma dezena de povoados paranaenses surgiram, inicialmente, como pousos de tropeiros. De inicio nem ao menos  possuíam nomes, porém, mais tarde se transformaram em pequenas e vilas até grandes Cidades.

Estes povoados iam aparecendo à distância de aproximadamente 30 quilômetros uns dos outros. Distância que era percorrida pelas tropas durante um dia de caminhada, quando eram obrigados a parar para dar descanso aos animais e  buscar abrigo e alimentação para si próprios.

Estes locais eram, normalmente, uma rústica pousada, ou barracas improvisadas feitas com tecidos de algodão, que, na maior parte das vezes, não impedia que as águas das chuvas molhassem seus ocupantes e tendo nas proximidades um potreiro, onde os animais eram soltos, e devidamente vigiados ao custo de 200 reis por cabeça.

Os tropeiros costumavam levar, no retorno de suas tropeadas, os gêneros de primeira necessidade que, por ventura, não existiam em suas localidades de origem, tais como: Sal, açúcar, farinhas, polvilho, rapadura, ferramentas e outras necessidades mais.

IRATI vista em fotos antigas ou em desenhos feitos pelos artistas Primo Araújo e Mestre Rosinha, mostram muitos indícios da passagem de tropeiros pelas nossas ruas e carreiros. Vindas da região de União da Vitória, as tropas entravam no Covalzinho por carreiros que seguiam o traçado onde hoje existe a Rua 19. Este carreiro seguia, descendo até onde hoje é a atual delegacia de polícia, local em que se dava inicio a primeira e única rua da Vila, que, inicialmente se chamou Rua do Comércio, depois Rua Velha e hoje Rua XV de Julho. Esta rua ia somente da atual delegacia até o início da atual rua Cons. Zacarias que, dali em diante, voltava a ser um carreador, que seguia em direção a Palmeira.

A Rua do Comércio, era ladeada por grandes valetas cortadas, de quando em quando, por pontilhões que serviam de acesso as residências da rua, tendo em locais estratégicos (frente de bodegas e armazéns, casas de coronéis e prédios públicos) palanques providos de argolões de metal que serviam para se prender as montarias dos habitantes da vila e dos tropeiros que circulavam pelo local.

Outro indício da passagem das tropas pela nossa cidade, aparece em alguns dos artigos do nosso primeiro código de Posturas Municipais de 17.07.1907.
No seu artigo 83, ele informa: É proibido galopar nas ruas da vila, salvo em caso urgente de socorro e moléstias.

Artigo 84 – É proibido conduzir pelas ruas e praças, animais bravos e enloucados, a não ser a “cabo curto” (cabo curto significava com o cabresto ou o freio bem seguro)

Artigo 85 – É proibido aos carroceiros e condutores de qualquer veículo trazer os animais a trote largo pelas ruas e praças.

Artigo 86 – É proibido ter animais suínos, caprinos, langíneros e cães soltos nas ruas e praças da vila. Excetuam-se das disposições acima os cães de tropeiros ou viajeiros em transito pela vila.

Artigo 87 – Qualquer das infrações acima serão punidas com a multa de 10$000 a 20$000 (deis a vinte mil reis) além das mais que incorrer pelos acidentes que der causa.

É pouco, ou querem mais... Todas essas normas já existiam em 17.07.1907, isto é, há apenas dois dias após a criação do nosso município.

Algumas historias típicas do tropeirismo são bastante interessantes e também curiosas, senão vejamos:

Os tropeiros cavalgavam e utilizavam para o transporte de viveres e mercadorias as diversas raças de animais. Os mais comuns eram cavalos e mulas. No entanto uma delas aparece com mais freqüência nas páginas da historia das Tropas. Estou falando do Cavalo GARRANO, raça trazida para o Brasil pelos portugueses e espanhóis.

O Garrano adaptou-se e reproduziu-se, com facilidade, em território brasileiro, trilhando desde vastos planaltos até altas serras. Galgando montes e descendo encostas, recostadas de coxias profundas, ao sol a pino ou com o soprar dos ventos, cruzaram nosso país de Norte a Sul. Sobre este grande animal temos, também, um pouco da sua historia.  Conta-se que um peão que costumava passar com sua tropa, aqui pelo Covalzinho, certo dia, viu-se em “palpos de aranha” ao tentar refrear um potro Garrano, ao gosto crioulo: Ferido pelas esporas e com aquele peso intruso que o seu lombo nunca suportara, o GARRANO ora se dobrava, formando bossa de dromedário, ora se distendia em pulsos sucessivos e coices sem descanso. Carecia de grande perícia e não menor coragem quem se escanhoasse sobre o seu dorso agitado. Para o peão Setembrino porém, aquilo parecia uma diversão: cara alegre, os dentes ferrados no lábio superior, ia saltando, com a montaria, por todo o descampado e via-se que gostava fazendo sofrer o potro, ao esporear-lhe profundamente o ventre até sangrar. O peão malvado, depois deste dia, nunca mais foi bem recebido por essas bandas. Conta-se que teve, até de mudar a rota de suas tropeadas, a fim te se safar das represálias do nosso povo. Mas chegaram outros tempos e ai o GARRANO já aparece ao lado do homem, nos ranchos, no dia a dia da faina campeira, a lavrar a terra, a resgatar a rês perdida, a puxar carroça, a transportar nos alforjes mercadorias diversas, nos rodeios, nas tropeadas, nas carreiras de cancha reta, nas cavalhadas, nas feiras,  nos desfiles festivos e, principalmente, nas longas viagens.

Não deixou de ser GARRANO, o animal dócil e fervoroso que assumiu muitos nomes desde que veio para as Américas: Kaitá para os índios dos pampas, baguá para os índios do noroeste argentino, Mesteño e mustang para os mexicanos e californianos, cimarrone para os guatemaltecos, salvadorenhos, nicaragüenses, costarriquenhos, panamenses, bagual para os rio-platenses e pingo ou crioulo para os gaúchos Sul-Rio- Grandenses e tropeiros de todas as nossas paragens. Por onde passou, desviando dos caminhos trágicos, da sede e da fome, das chicotadas sem dó ou da morte por cansaço, deixou estórias de assombrar, criou afetos, fez figura no cinema, inspirou provérbios e canções na cultura dos nossos tropeiros. Havia entre o GARRONO e o TROPEIRO verdadeiras relações afetivas. Alguns faziam parte da família; outros eram amigos;  muitos eram tratados como camaradas ou velhos conhecidos.E isso não era prosa de peão, era assim mesmo. O tropeiro nunca abandonava o seu cavalo à sua própria sorte: Não passava ele por algum lugar onde visse um cavalo enfermo ou estropiado que não apeasse e fosse com pressa socorre-lo. Sangrava-o se era preciso; cauterizava-lhe as feridas; e até quando o animal não podia se erguer, ele o arrastava para a sombra e ia buscar-lhe água no chapéu em falta de outra vasilha. Estes gestos comprovam a tendência do tropeiro para o amor e a ternura, por uma das suas duas grandes paixões porque a outra foi sempre a dama que levou, de rota batida, na garupa do GARRANO. E essas vibrações íntimas acompanhavam o tropeirista até o fim de suas vidas, fazendo-o afirmar: “Estou velho, tive bom gosto. Morro quando Deus quiser. Duas relíquias levo comigo; Um bom cavalo e uma linda mulher.”
Perdoem-me, caros ouvintes, mas falar de tropeadas e tropeiros, sem reverenciar o seus bens mais preciosos: o CAVALO e a PRENDA, seria o mesmo que falar de família sem reverenciar o AMOR.

Outra parte muito importante da historia das tropeadas, diz respeito ao palavreado típico da atividade:

Segundo algumas informações que consegui colher, uma TROPA agrega diferentes elementos e atribuições que contribuem para o bom andamento dos trabalhos:

Compõe a tropa o Capataz, o ponteiro, o fiador, o meeiro, o madrinheiro, o cozinheiro e os demais peões. As mulas que transportavam as cargas e aquelas chamadas de revezo, que substituíam as que iam cansando. As comidas mais usuais das tropas eram o arroz de carreteiro, o feijão tropeiro, o charque (carne que era trazida sobre o lombo do cavalo, debaixo do baixeiro e da sela, que amaciava e salgava com o suor do animal e que após enxaguada em água de rio era assada em fogo de chão) o café tropeiro (que se colocava o pó na chaleira, acrescentava-se água fria e que um tição aceso, colocado dentro, fazia o líquido ferver tornando-se um rústico, porém, gostoso café), o Chimarrão e o tereré.

Alguns outros elementos que sempre estavam presentes na lida dos tropeirismo eram os berrantes e guampas, o carroção, os animais selvagens, tipo o guacho, um passarinho que chupa laranja, o queixada (espécie de porco do mato), Ariranha (animal aquático), o lobo guará, a anta, a boleadeira e muitos outros apetrechos campeiros. Assim como o cavalo é parte integrante da vida do tropeiro, a Erva Mate, não deixa por menos:

Regras para tomar o chimarrão

•A cuia é de uso comum, portanto não tenha nojo (claro também não vai oferecer para alguém que esteja com sapinho ou algo pior na boca).
•Chimarrão não é igual tereré, logo não tente tomar toda a água em um único gole (isso é perigoso !! experiência própria). Tome com calma.
•Cuia também não é microfone. Não demore muito
•Evite (melhor NUNCA) mexer na bomba. Em casos extremos, se a bomba estiver trancada gire-a um pouco para cada lado.
•Nunca deixe um chimarrão pela metade. Você sabe que o mesmo terminou através do tradicional ronco da bomba.
Preparando o próximo chimarrão.
•Geralmente sobra uma erva seca na parte superior da cuia, reserve um pouco.
•Jogue o resto da erva no lixo e passe uma água dentro da cuia (limpe bem)
•Deixe escorrer um pouco
•Jogue a erva que você reservou dentro da cuia e espalhe por toda a cuia
•Faça isso toda vez, pois assim você estará curando a cuia e terá um bom chimarrão.
•Não esqueça de limpar a cuia quando for fazer um novo chimarrão. Isso pode ser feito raspando essa erva com a mão.

À noite, quando o tropeiro acampava e a fogueira era acesa, além de uma boa música de viola ou violão, começavam a surgir o relado de causos e lendas. As mais conhecidas eram sobre Boitatás (bolas de fogo que apareciam em noites escuras), Mula sem Cabeça (o próprio nome já identifica o causo), os enterros, que não eram do tipo funeral e sim, panelas de ouro que eram enterradas nos campos por senhores abastados e avarentos. A denominação ENTERRO vem desta prática. (A lenda diz que, próximo a esses locais de enterros, vagavam entidades assombradas a fim de protegerem o tesouro ali depositado).

Havia também os tesouros escondidos pelos Jesuítas, por ocasião de suas retiradas de um para outro local de catequização.

Sobre isso se conta que nos conventos destas congregações são vendidos roteiros enigmáticos que relatam em códigos onde  encontram-se esse locais.
E para finalizarmos este maravilhoso tema, nada mais significativo que uma lenda, muito conhecida no tropeirismo, que diz respeito ao Negrinho do Pastoreio:
O Negrinho do Pastoreio é uma lenda do folclore brasileiro surgida no Rio Grande do Sul. De origem africana, esta lenda surgiu no século XIX, período em que ainda havia escravidão no Brasil. Esta lenda retrata muito bem a violência e injustiças impostas aos escravos.

A lenda

De acordo com a lenda, havia um menino negro escravo, de quatorze anos, que possuía a tarefa de cuidar do pasto e dos cavalos de um rico fazendeiro. Porém, num determinado dia, o menino voltou do trabalho e foi acusado pelo patrão de ter perdido um dos cavalos. O fazendeiro mandou açoitar o menino, que teve que voltar ao pasto para recuperar o animal. Após horas procurando, não conseguiu encontrar o tal cavalo. Ao retornar á fazenda foi novamente castigado pelo fazendeiro. Desta vez, o patrão, para aumentar o castigo. colocou o menino pelado sobre um formigueiro. No dia seguinte, o patrão foi ver a situação do menino escravo e ficou surpreso. O garoto estava livre, sem nenhum ferimento e montado no cavalo baio que havia sumido. Conta a lenda que foi um milagre que salvou o menino, que foi transformado num peão.

E por isso o Negrinho do Pastoreio é considerado, por aqueles que acreditam na lenda, como o protetor dos tropeiros e das pessoas que perdem algo. De acordo com a crença, ao perder alguma coisa, basta pedir para o menino do pastoreio que ele ajuda a encontrar. Em retribuição, a pessoa deve acender-lhe uma vela ao menino ou comprar uma planta ou flor.

Obrigado pala audiência de todos vocês, que acompanham o meu programa IRATI DE TODOS NOS, prometendo aqui estar, novamente, no próximo sábado com um pouquinho mais da historia da nossa terra e da nossa gente, Até lá.


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