Matérias / Irati de Todos Nós

20/02/12 - 18h52 - atualizada em 20/02/12 às 19h15

Médico de Família parte III

O Programa Irati de Todos Nós é idealizado por José Maria Grácia de Araújo e vai ao ar pela Najuá AM, todos os sábados, às 14 horas
Confesso a todos vocês, meus prezados ouvintes, que não esperava tão grande repercussão para esta série de programas que estou levando até vocês e que se intitula: MEDICO DE FAMÍLIA – Lourival Luiz Fornazari. Mais uma vez agradeço a gentileza de Dona Leny por me haver liberado o conteúdo do livro de seu esposo, nosso querido e inesquecível Dr. Fornazari, para que pudesse montar os meus programas. Agradeço, também, a todos aqueles que, ao me encontrarem nas ruas, lojas e outros locais da nossa cidade, têm evidenciado a satisfação de estarem acompanhando a série MEDICO DE FAMÍLIA. Em fim, muito me orgulho e ter tido a grande honra de conhecer pessoalmente o Dr. Fornazari como pessoa e até como médico de minha família e meu em particular. Lembro-me que ao voltar para minha querida Irati, no início da década de 90, exercendo a minha profissão de Decorador de Interiores, fui contratado pelo casal, Lourival e Leny Fornazari para a execução da decoração do seu apartamento. Muito me orgulho disso.

O meu boa tarde a todos, desejando um ótimo final de sábado, um especial domingo em família com muita paz, harmonia e amor em seus lares e em seus corações.

Mas, vamos logo a mais um dos muitos causos do nosso Médico de Família, Dr. Fornazari:

Piá Safado
PIÁ SEM VERGONHA

Nas casas em que eu realizava atendimentos, muitas vezes havia crianças curiosas, o que é natural delas.
Em uma ocasião fui atender a uma senhora que estava com uma traqueobronquite, e havia um piazinho que ficava o tempo todo brincando com o meu estetoscópio e mexendo em meus aparatos médicos. A mãe do menino dizia:
- Larga mão de pega as coisa do tio, seu moleque! Dexê o dotor trabaiá sussegado. Vá já pra lá, seu pestinha!
Mas o guri ignorava as recomendações da mãe e continuava brincando com os meus instrumentos de trabalho.
Fiz o diagnóstico e a receita para a mulher e saí apressadamente, pois eu tinha outros casos urgentes para atender.
Cerca de 40 minutos depois, quando eu já estava em meu consultório, chegou um rapaz, filho daquela senhora que eu havia atendido, me dizendo:
- Dotor Fornazari, pelo amor de Deus, o senhor não vá ficar aborrecido. È que aquele meu irmãozinho do diabo consumiu com a receita do remédio que o senhor fez para a minha mãe. Procuramos por tudo e não achamos. O senhor pode fazer outra para nós?
- Claro que sim, faço com o maior prazer – respondi e peguei em minha pasta o bloco de receituário pra fazer uma receita nova. Entretanto, descobri que a receita original ainda estava no bloco. Eu a havia feito, mas devido a minha pressa, acabei esquecendo de entregá-la. Então fingi que havia feito outra e dei aquela já pronta ao rapaz que disse: - Muito obrigado, dotor! O senhor não se preocupe que o papai já deu uma boa surra naquele piá sem vergonha. Meu irmãozinho é acostumado a fazer essas coisas mesmo.

Bronca do moleque
Até hoje eu me envergonho de nunca ter contado a verdade para aquela família. Mas acredito que foi até bom, aquele menino traquina precisava mesmo de um corretivo. Durma com um barulho desses.

Com todas as oportunidades a sua disposição, o jovem Fornaziri escolheu uma pequenina cidade, perdida no sertão paranaense, para exercer, por toda a sua vida, a profissão de MEDICO DE FAMÍLIA. Por que Irati Dr. Fornazari?

Sabe, José Maria, tudo aconteceu assim: Alguns dias depois da minha colação de grau universitário, eu, a Leny e a pequena Eleusa viemos para Irati para passar as festas de fim de ano com meus pais. Eles estavam morando nesta cidade porque meu pai viera trabalhar como gerente de mecânica da concessionária Chevrolet, pertencente à família Dallegrave.

A alegria era total, pois ao típico clima festivo dessa época do ano, quando ocorre o reencontro de familiares e amigos da família, juntara-se a comemoração da minha formação em medicina. Recebi cumprimentos de todos. Seu Luiz estava satisfeito, orgulhoso, e eu também, por ter feito um curso diferenciado, por ter me graduado em uma profissão que era a mais requisitada na época. Em meio ao burburinho animado, meu pai me falou em particular: - Lile, tem um cidadão, filho de uma família muito conhecida aqui em Irati, que quer muito conversar com você.
Papai me apresentou o tal rapaz, que me disse: - O senhor é quem é o doutor novo? Sabe, doutor, meu pai esta muito doente. Ele esteve em Curitiba, uns quinze dias atrás, mas os médicos de lá fizeram de tudo e não conseguiram cura-lo, e nos disseram: “Melhor vocês levarem ele de volta para casa porque não tem mais o que fazer, já fizemos tudo o que podia ser feito pela medicina e se ele falecer aqui vocês vão problemas para transportar o corpo”. Então nós obedecemos e trouxemos o papai de volta para Irati. E agora já vai fazer dois dias que ele geme, geme, pede e Deus para morrer, não para na cama, não consegue dormir, doutor. Estamos com muita pena dele. Já demos os remédios, mas de nada adiantou. Não sabemos mais o que fazer. Pode nos ajudar, Doutor?
- Olha, moço, estou começando agora minha vida profissional, sou recém formado... E o jovem respondeu:
- Pois é, doutor, mas eu peço pro senhor, por favor, faça essa caridade!

Já que meu pai queria que eu fosse um médico da caridade, eis a oportunidade para atendê-lo. Acompanhei o rapaz até a casa de seu pai. Não dispunha de equipamento apropriado para tender o paciente, além de um estetoscópio, um termômetro, desses bem baratinhos, que tinha de ser surrado para que seu mercúrio se movesse, uma cadernetinha em branco e uma caneta. Ainda não possuía nem o meu CRM do Conselho Regional de Medicina.

Ao chegarmos notei que a casa estava cheia de velas acesas e de gente rezando, o que me fez pensar que o homem já havia falecido. Fui conduzido ao quarto onde se encontrava o velhinho que em pé e apoiado na cabeceira da cama, balbuciava em tom de reclamação: _ Ai, ai, me leva, Dios Mio!
No olhar daquele ancião logo senti um lampejo de descrédito, que parecia dizer: “O que é que esse guri, que nem barba tem, vai querer fazer comigo? Fui atendido em Curitiba pelos melhores especialistas e agora esse aí, que nem saiu dos cueiros ainda, o que pensa que vai conseguir?”.

Juro que fiquei preocupado com aquele olhar, mas, mesmo assim, comecei a examina-lo. Escutei o coração e ouvi todos os ritmos possíveis e imagináveis, de tanta disritmia, havia até uns batuques musicais, desse bem moderninhos. A pressão estava em nove. Tive a impressão que o velhinho teria um colapso a qualquer momento.

Bexiga cheia
Comecei a apalpa-lo, como sempre procedia para saber se havia hérnias ou tumores, e encontrei um tumoração no abdômen, parecida com um útero grávido de quatro meses aproximadamente. Exatamente na região onde ele se queixava de dor. Foi então que perguntei-lhe: - O senhor tem urinado, seu Antonio?
- Já fai mai di dois dia que non mijo, meu fio... távindo só uns pinguinho, assinzinho, oiá. I agora nem isso vem mais...
Foi o que bastou para que ficasse claro para mim que o que estava acontecendo, na realidade, era uma obstrução na uretra, com distensão da bexiga urinária, o que, naturalmente, provoca dores horríveis na pessoa. Tal obstrução era oriunda de um tumor prostático o qual eu não pude diagnosticar se era maligno ou não, mas que pela idade e pelo estado geral do paciente, não deveria ser câncer. 
Era necessário o uso de uma sonda e eu fui procurar uma, mas estava em falta nas duas farmácias de havia em Irati. Para substituí-la  consegui uma agulha grossa, uma seringa, um par de luvas, álcool iodado e gazes. Ao realizar a punção, foi tão grande a pressão intravesical, que saiu um jorro fortíssimo que fez segurar firmemente a seringa para não ser arremessada para longe. Eu e o chão ficamos encharcados.
Aos poucos foi gradativamente reduzindo-se a tensão da bexiga, e o velhinho foi acalmando-se cada vez mais até adormecer. Ele suava em bicas e o enxugávamos com todo o cuidado para não acorda-lo, já que há várias noites não dormia.
No dia seguinte, seu Antonio acordou parecendo muito surpreso, como se achasse que o que tinha sofrido era apenas um pesadelo, mas quando me viu e me reconheceu, recordou que tudo aquilo havia realmente acontecido.
Então eu lhe disse: - Eu sou o médico, seu Antonio. Esvaziei a sua bexiga e agora o senhor não vai mais sentir dor. O senhor acha que esta melhor?
- Ah, si, si, dotor, io to muito milhor agora. Io tive lá em Curitiba e os dotore de lá non viro o que iô tinha.
- Mas o senhor não se queixou das dores para eles?
- Io non, eles eron tuto espechialistas, i era eles que tinhade acha a complicação, non iô!!!

Aí, então, meu paciente se sentou com as pernas para fora da cama e me falou:
- Dotore, iô só tenho que agradece a Dio por ter mandato o sinhore aqui. O sinhore me deu uma nova vita, filho mio!

- Meu bom velhinho, eu não fiz mais que a minha obrigação. Peço até desculpas por ter machucado um pouco o senhor durante o atendimento.
 Quando me levantei da cadeira, o velhinho também se levantou, segurou calorosamente a minha mão, beijando-a me disse:
- Iô no to pedindo que você me abençoe, filho... To pedindo a Dio pra te abençoa, filho mio! Gracie...Gracie!

Seu Antonio veio a falecer algum tempo depois, vítima de uma parada cardíaca. Ele já havia sido desenganado pelos médicos de Curitiba com relação a problemas cardíacos e o sofrimento causado pela obstrução prostática, possivelmente, agravou ainda mais o seu estado.

E foi aí, então, que se espalharam por toda a pequena Irati os comentários de que: “Esse dotor novo deve ser dos bão, pois curô o veinho que veio de Curitiba pra morre em casa!!! Imagine! O home já tinha até sido desenganado, pelos médico de lá. O Veio tava morrendo de madrugada e de manhã foi se senta na mesa pra toma café côa famíá. Pode Compadre?
-É, eu inscutei fala mermo, comadre...E diz inté que ele pega o sujeito que já ta la dentro do purgatório e puxa pra fora, de tão bão que é!

E devido a essa “propaganda” exagerada começou uma grande procura pelos meus préstimos. Inicialmente eu atendia na sala de estar da casa de minha mãe, principalmente a criancinhas pequenas, a maioria com sintomas de diarréia e vomito. Depois, aluguei uma pequena sala para montar o meu primeiro consultório particular. E foi assim, Zé Maria, que acabei me radicando na cidade de Irati.

Irati – Anos 50


Que história maravilhosa, Dr. Fornazári! Acredito que sua escolha por Irati para ser a cidade onde desenvolveria sua profissão, foi uma obra de previdência divina. Mas o senhor poderia dizer para este povo maravilhoso, que todos os sábados acompanha o meu programa, como era Irati nesta época em que o senhor veio para cá.

Pois é, Zé Maria, sei que você também conheceu a Irati desse tempos, mas vou dar a minha impressão pessoal de como eu senti a velha Irati daqueles tempos em que por aqui cheguei.

TERRA DE MUITO MEL – A estrada de ferro que se estendia entre São Paulo e Rio Grande do Sul foi deixando sementinhas que germinaram novas cidades. As pessoas que trabalhavam na ferrovia passaram a morar ao longo do seu leito e foram formando, paragens, povoados e vilas, onde se estabeleciam comércios para atender a esses moradores.
Em 1899, foi inaugurada a estação do Covalzinho, que logo passou a se chamar Irati, nome de origem indígena, que significa “Terra de muito mel” ou “Rio de Mel”, conforme conhecemos. Na região havia grande quantidade de vários tipos de abelhas silvestres como a Iratim, a mandassaia, a guamirim e a tuvuna, entre outras, que produziam grande quantidade de mel. Os índios caingangues, que originalmente habitavam o lugar eram conhecidos como “Iratins”, porque usavam um casquete feito com a cera Iratim.
A vila que se formou ao redor da estação começou a crescer com a chegada de habitantes de outras regiões do estado, principalmente, Campo Largo e Ponta Grossa, que se encantaram com a beleza do lugar. Suas matas fechadas, nas quais se sobressaíam os imponentes pinheiros, de 50 ou 60 metros de altura. Um filho de um imigrante europeu disse-me certa vez: Os galhos da araucária, arqueados e voltados para cima, são como os nossos braços elevados ao céu em oração, em agradecimento ao Pai Eterno pelas maravilhas que Ele criou.

Na época da florada Irati parecia com imensos buquês de flores, de diversos tipos e tamanhos, nas mais variadas formas, cores e perfumes, que só mesmo o Criador poderia fazer.
Irati era um pedacinho do Paraná, com uma beleza espetacular, com a abundância de madeiras de lei. Imbuias, cedros e também a erva-mate e água mineral. Tudo isso atraia o interesse de muitos, para vir para cá.

Poloneses, ucranianos, russos, italianos, holandeses, alemães, portugueses e espanhóis, todos chegando pelo porto de Paranaguá, todos escolhiam a região de Irati para se estabelecerem.
A falta inicial de integração do imigrantes com a população local fez com que o crescimento de Irati se tornasse um pouco mais lento. Entretanto como a terra era muito rica em recursos naturais e esses povos estrangeiros muito trabalhadores, com o tempo, aconteceu o crescimento do município.
Instalaram-se, assim, novas casas comerciais e industriais. Inicialmente serrarias e posteriormente indústrias de beneficiamento das mesmas. As madeiras, em especial a araucária, eram beneficiadas em tábuas, vigas, ripas que eram remetidas a todas as regiões do estado e do país para a edificação de novas vilas e cidade.

Possante anos 50


No início dos anos 50 já utilizavam-se caminhões Chevrolet, Ford, Internacional e Studebaker, para o transporte de madeiras. Mas o grande problema da época eram as avarias mecânicas devido as condições das estradas do município e da região, pois esse veículos eram originalmente projetados, em seus paises de origem, para trafegar em rodovias pavimentadas e até asfaltadas. Na oficina onde meu pai trabalhava chegavam muitos caminhões com suas pontas de eixo quebradas. Seu Luiz Fornazari, em parceria com a Empresa Thoms & Benato, fabricava pontas de eixos novas, para todos que procuravam concertos.

Os motoristas desses antigos caminhões, sempre tinham um ajudante, pois nas muitas subidas íngremes existentes na região, alguém tinha que descer do veículo para colocar calços sob os pneus traseiros, a fim de impedir que o veículo voltasse de ré, ladeira á baixo, já que os freios eram insuficientes para o peso de suas cargas.
Os motores destes caminhões eram de seis a oito cilindros e movidos a gasolina, porém, devido a escassez deste combustível, durante a guerra, e mesmo algum tempo depois, foram movidos a gasogênio. Um sistema de combustão inventado na época.

Sabe, Zé Maria, quando eu iniciei minha atuação como médico pelo interior de Irati, na década de 50, ainda existia uma grande movimentação nas colônias de emigrantes existentes no município. Eu não fazia somente o atendimento médico nesses locais isolados, mas também procurava fazer amizades, ganhando a confiança de seus habitantes. Isso era muito importante para mim. Podiam ser poloneses, ucranianos, italianos ou alemães, eram e são todos filhos de Deus, somos todos irmãos, filhos de um mesmo Pai. Como a maioria deles era católica, foi mais fácil penetrar naquela “redoma” em que eles viviam, e assim foi os conquistando aos poucos, o que contribuiu bastante para promover a sua integração com a população brasileira do município.

Bem, Dr. Fornazari, já estamos nos minutos finais do nosso programa de hoje, mas aproveito para reconvidá-lo para que no próximo sábado o senhor esteja conosco novamente para apresentarmos a quarta parte de sua maravilhosa história como MEDICO DA FAMÍLIA IRATIENSE.
Sabe Doutor, tenho encontrado nas ruas e lojas da cidade, muitas pessoas da velha e da nova guarda, também, que me cumprimentam pela iniciativa que tomei de contar a sua história, contida em seu livro, MEDICO DE FAMÍLIA. Todos Estão gostando muito, e até, alguns já me disseram que vão comprar o livro na Banca do Cavalim, só para conhecer mais ainda o seu grandioso trabalho como o médico da família iratiense. Alguns chegaram a me confidenciar que, quando estiverem com seus ânimos um pouco para baixo vão abrir seu livro no capítulo IV só para se alegrarem e levantarem seus ânimos lendo os seus causos.

E por falar em “causos”, todos nós, neste final de programa queremos que nos conte mais um daqueles bem alegres e curiosos que só o senhor sabe contar.

Bem Zé Maria, assim você até me deixa vaidoso, em saber que mesmo agora que não podendo mais estar com vocês, meus causos ainda servem para animá-los e descontraí-los. Mas vamos deixar de “salamengues” que agora é momento de alegria.

Cine Central


A FITA DO WASILEWSKI
 
Em Irati, nos anos 50, havia um único cinema que passava aqueles “farvestões” cheios de índios, em que o mocinho, com dois revolveres, matava trinta, quarenta peles vermelhas, sem recarregar, e depois ainda soprava no cano da arma.
Num desses filmes, quando o mocinho terminou a mortandade indígena e soprou no cano das pistolas, alguém da platéia gritou, em alto e bom som:
_ agora dá um tirinho no Wasilewski!
Um dia, no entanto, finalmente chegou uma fita de primeira linha, SANSÃO E DALILA, uma produção de gala de Hollywood, com um tema histórico-religioso e atores consagrados. Esse filme foi passado durante quase uma semana.
E continua o Dr. Fornazari: Eu fui na primeira noite de apresentações, mas fui chamado pelo auto-falante do cinema para atender um caso de urgência. Voltei na segunda noite e, infelizmente, sucedeu a mesma coisa. E assim foi até que seria a última apresentação do filme. Esperava que, nesta ocasião, não fosse chamado novamente. Ledo engano. Já, antes de iniciar o filme, o alto-falante já me chamava novamente. Desta vez, confesso que fiquei bastante chateado e fui até a portaria perguntar se o caso era urgente mesmo.
Dotor eu si vim aqui fazer um favor que uma vizinha me pediu. Não sei, mas ela disse que não coisa boa.

Era uma pessoa doente em uma casinha da serraria dos Dellegraves. Eram casebres de três cômodos que dispunham de apenas uma única lâmpada, presa ao teto por um longo fio, o que permitia que a luz fosse levada para os outros dois cômodos da casa, quando fossem ser usados. Entre os cômodos havia uma meia parede que permitia a passagem da lâmpada.
Quando eu cheguei na casa, colocaram a luz na porta de entrada para que pudesse entrar no local e depois a levaram para o quarto, onde se encontrava uma mulher acamada.

- Aqui, dotor, aaaaiiiiiiii, me acuda!

- O que ta acontecendo mulher?

- Eu não sei, mais acho que vou morre, dotor! Eu se operei do útero em Ponta Grossa, faiz trinta dia, i não to nada boa...

Eu a examinei e logo diagnostiquei:

O intestino da senhora ta distendido, ta cheio de gases e é isso que esta incomodando a senhora. Vou fazer-lhe uma medicação que vai eliminar esses gases e aí tudo vai melhorar. O restante esta tudo bem. A senhora só esta estufada.

Neste momento, apagou a luz e a mulher desandou a gritar assustada:
- Por que ficou escuro? To morrendo???
A situação piorou quando alguém entrou no quarto com uma vela acesa, a mulher caiu em desespero:
- Vai ponha a vela na minha mão, dotor Fornazario?! Eu to morrendo???, não minta pra mim! Olha aí, eu to no fim! Sopra essa vela, pelo amor de Deus!!!-

_ há, mulher, cala essa boca. A senhora não vai morrer coisíssima nenhuma! Vai viver muito tempo ainda. O que aconteceu é que acabou a energia elétrica, por isso acenderam a vela.

- É mesmo, apagou o foco... Que bom que a vela não pra mim. Mais eu to muito mal dotor...

- Ta mal nada! A senhora já vai levantar pra soltar esses gases. Tem de andar um pouco.

Todos a ajudaram a levantar e ela disse:

_ O senhor descurpe, mais eu vô te que solta os gais...

- É pra soltar mesmo, pode ficar a vontade.

- A pobre, então, iniciou o foguetório, o que me convenceu que o seu problema era mesmo a retenção de gases.

- Dotor eu não vô podê pagá o senhor, pois gastamo tudo em Ponta Grossa...

- Não vai custar nada, dona. Só quero que a senhora não seja mais tão medrosa. Pois o dia em que for morrer mesmo, não terá tempo de fazer toda essa “fita”. Vou lhe dizer mais, a senhora fez fita aqui em sua casa e eu tive da sair do cinema onde estava vendo uma outra fita bem mais interessante.

É isso aí, dotor Fornazari, de fita em fita o senhor foi curando todos os males da nossa população, até em prejuízo da sua justa descontração e diversão que por muitas vezes somente o nosso querido Cine Theatro Central nos oferecia. Estaremos lhe esperando, no próximo sábado, para mais um desses bate-papos que nos conforta e recompensa pela sua falta entre nós. Até lá.


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