Matérias / Irati de Todos Nós

13/02/12 - 14h43

Médico de família - parte II

O Programa Irati de Todos Nós é idealizado por José Maria Grácia de Araújo e vai ao ar pela Najuá AM, todos os sábados, às 14 horas
Conforme combinamos no programa da semana passada, hoje irei dar continuidade aos relatos sobre a vida do nosso querido e inesquecível “MÉDICO DE FAMÍLIA” – Dr. Fornazari.

E, como todos que o conhecemos sabíamos, o Dr. Fornazari, além de um excepcional profissional da medicina era, também, e com maestria, um exímio contador de “causos”.

No seu livro “MÉDICO DE FAMÍLIA”, capítulo IV, estão registrados inúmeros causos curiosos e hilariantes, alguns dos quais passarei a comentar ao início e/ou ao término dos programas desta série que homenageia nosso tão querido MEDICO DE FAMÍLIA – Lourival Luiz Fornazari.

BRUTA CÓLICA

Os poloneses das colônias geralmente chamavam a toda e qualquer dor, em qualquer parte do corpo, de “cólica”. Uma vez, chegou um rapaz em meu consultório:
- Dotor Fornazari, tô cuma bruta cólica no bariga.
Mandei-o deitar na mesa e comecei a examinar-lhe a região do abdômen. Perguntei onde exatamente ele estava sentindo dor, e ele respondeu:
- Dotor, o senhor tá inzaminando o lugá erado!
- Mas você não disse que era cólica na barriga, rapaz?
- É aqui, oi!... no bariga do perna!
Pode?

O MEU BOA TARDE A TODOS, esperando que tenham se divertido com o causo “BRUTA CÓLICA” do nosso insubstituível Dr. Fornazari, como também desejo que o causo tenha servido para aumentar a alegria, a paz, a tranquilidade e o amor que inundam os seus lares e os seus corações.

Mas, chega de “entre tantos” e vamos aos “finalmentes”:
POR QUE SERÁ QUE O JOVEM LOURIVAL LUIZ FORNAZARI ESCOLHEU A MEDICINA COMO SUA PROSISSÃO DE DEVOÇÃO? Haaaaa! Vocês não sabem? Então me acompanhem e, então, ficaram sabendo.

POR QUE MEDICINA, DR. FORNAZARI?
Sabem, meus amigos de Irati, aos dezessete anos, eu fazia o curso pré-vestibular do Regente Feijó. Ao mesmo tempo, ingressei na Companhia Quadros do 13º Regimento de Infantaria do Exército, o “13 RI”, onde servi por sete meses; estávamos em época de guerra. Eu já estava nos últimos meses do pré-vestibular quando meu pai me disse:
- Filho, eu preciso ter uma conversa séria com você. Naturalmente, pensei: “O que será que eu fiz?”. Fiquei surpreso, pois eu não lembrava de ter feito nada, eu não era de fazer coisas erradas.



E seu Luiz prosseguiu o diálogo:
- Lile, você já está na idade de ter um ofício, porque é através do seu trabalho que você vai sobreviver. Você deve escolher uma atividade para exercer, só será um bom profissional desde que a execute com competência, honestidade, dedicação e amor. Quem trabalha assim, nunca fica desempregado. Mas sempre se tem de fazer aquilo que se gosta.

Escutei com atenção as palavras de meu pai e achei mesmo que ele tinha razão, mas eu ainda não decidira qual profissão escolher. Eu só pensava na Leny, minha namorada. Então, lhe perguntei:
- Papai, eu não ainda não pensei no que vou fazer. O senhor nunca exigiu nada de mim, sempre foi meu conselheiro e amigo, muito mais que pai, mas eu gostaria que o senhor externasse qual profissão deseja para mim.

Lembro e fico emocionado. Meu pai me olhou com seus serenos olhos azuis e, com toda calma, respondeu:
- Sabe filho, todas as profissões são importantes para a sociedade, todas elas, mesmo as mais humildes. Mas você, Lile, eu desejaria que praticasse a caridade, pois a profissão que oferece maiores e continuas oportunidades para isso é a Medicina. Gostaria que você fosse um médico da caridade, filho.
Pedi a meu pai que falasse sobre a caridade e ele me deu uma verdadeira aula sobre o assunto, concluindo com essa frase:
- “A caridade é a estrada que nos conduz a Deus, meu filho”. Emocionei-me com aquelas belas palavras, ainda mais por vir de me pai, um homem simples, justo, bondoso. Um homem que eu nunca soube que cometeu erros. Nunca se ouviu de seus lábios uma única palavra obscena. Um italiano que não dizia palavrões! Pode?
Com isso me decidi ser médico e convidei dois amigos de infância, Odilon Maciel e Issaac Federmann, para que fizéssemos juntos o vestibular para medicina. Eles aceitaram.

Seu Luiz Fornazari ficou muito contente pela minha escolha, más eu fiquei preocupado, porque o vestibular pra medicina na Universidade do Paraná em Curitiba, de acordo com o que eu me informara tinha naquele ano 2.800 candidatos, a maioria de outros estados, como São Paulo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Minas Gerais. Assim, acho que sofri uma concorrência até um tanto desleal, porque aqueles candidatos faziam cursinho, coisa que não tínhamos ainda no Paraná naquela época, e alguns desses estudantes já estavam em seu terceiro ou quarto vestibular, com uma experiência que lhes dava alguma vantagem.

Pegamos o programa do vestibular na secretaria da universidade e compramos os livros didáticos das matérias que seriam exigidas no exame. Estudando juntos, eu, Odilon e Isaac nos ajudávamos mutuamente.

Fui prestar o vestibular com tranqüilidade por achar que não ia passar, pois eu estava conformado de que não tinha condições para concorrer. Com toda a calma, peguei as provas e verifiquei com surpresa que eu sabia quase tudo. Passei em ótima colocação e meus amigos também passaram, tornando-se meus companheiros de faculdade. Então, conclui: “Papai estava certo, ele já sabia que eu ia passar e que me dedicaria à caridade”.

Antes de ir para a faculdade, decidi noivar com minha namorada Leny Colleone. Já namorávamos há um bom tempo, desde os nossos quinze anos de idade; fui o primeiro namorado dela e ela também foi o meu primeiro amor. Penso que éramos duas almas gêmeas, porque nos dávamos muito bem, embora ocorressem algumas pequenas crises de ciúme. Leny era uma moça muito bonita, muito cobiçada e eu, muito ciumento, com essa minha sanha oriunda da miscigenação de sangue espanhol com italiano – mistura que não recomendo a ninguém – não admitia que outros rapazes se insinuassem com ela.

E assim, depois de tanto tempo namorando a Leny, freqüentando a casa da família dela, eu achei que deveria assumir um compromisso sério que me impedisse de traí-la, pois eu estudaria na Capital, onde havia muitas moças bonitas e “moderninhas”, com maquiagens e vestidos mais tentadores, e eu seria um jovem solteiro e estudante de medicina e que certamente seria muito cobiçado por elas.
Meu primo Arichernes Gobbo resolveu, também, noivar com a Zeny, irmã de Leny. Assim, aproveitamos e fomos os dois juntos até a casa do seu Ângelo Colleone (Seu Angelim), pedir, ao mesmo tempo, as suas duas filhas em noivado.

Chegando a casa dos Colleones, os encontramos muito bem “arrumadinhos” para nos recepcionar. Sentamos todos na sala de estar e eu esperava que o Arichernes começasse a falar. Mas ele ficou calado. Dei-lhe uns leves cutucões, mas ele permaneceu em silêncio. Então, resolvi falar:
_ Seu Angelim, tenho a honra de pedir a mão de sua filha Leny em noivado, porque vou ausentar-me por um tempo para estudar em Curitiba e quero firmar o compromisso para justificar o meu amor por sua filha.
E a seguir, o Arichernes aproveitou a deixa e disse: “E eu também”.

Finalmente fui para Curitiba morar em um quarto de pensão estudantil. As aulas da Faculdade de Medicina da Universidade do Paraná começaram em março de 1946.
Estudei com grande esforço. Eu ficava até altas horas da madrugada em uma pequena mesa da cozinha, estudando com o auxilio de uma garrafa de café bem forte e de um pequeno lampião a querosene “Aladim”, pois na época do pós-guerra o fornecimento de luz na cidade era interrompido entre a meia noite e à seis horas da manhã devido à escassez de óleo cru, combustível utilizado para a iluminação.

Na época ainda não existiam apostilas, as matérias eram anotas a mão, por isso a letra ficava ilegível, aquela letra típica de médico. Lembro que eu enviara uma carta manuscrita para a Leny e, quando fui visitá-la em Ponta Grossa, ela confessou que não conseguiu ler a carta por não entender a letra. Pediu-me para que eu lesse a missiva para ela, mas eu mesmo não entendi nada do que tinha escrito. Juro que tive que fingir que lia e ia inventando na hora o que estava escrito.

Os livros eram muito caros e eram somente em francês e espanhol. Eu os pegava emprestados de colegas e estudava durante a madrugada e os devolvia pela manhã. Existiam esses livros na Biblioteca do Paraná, mas eram poucos exemplares e quase sempre estavam emprestados; era muito difícil encontra-los disponíveis nas prateleiras, tamanha a procura.

Quando o café era insuficiente para combater o sono, eu colocava os pés dentro de uma bacia com água fria. Mesmo assim, quando algumas vezes o sono era intenso, eu marcava a página que estava estudando para continuar quando pegasse emprestado o livro, no dia seguinte.

Após algumas poucas horas de sono, eu acordava cedo e ia de bonde para as aulas da faculdade. Algumas vezes o bonde não parava e eu quase arrancava o “rabicho” – aquele cabo localizado na parte posterior que fornecia energia elétrica – para fazê-lo parar. O condutor ficava muito “contente”. Eu já era bem conhecido dele: “Ah, é você, garoto safado!”.

Nunca fui um aluno muito destacado nos estudos, sempre fui suficiente. Para fixar as coisas, muitas vezes eu tinha de escrever. No primeiro ano de Medicina, havia apenas duas cátedras, Anatomia e Histologia, mas cada uma com grande quantidade de matérias. No estudo de Histologia, por exemplo, quando se fazia análise minuciosa de lâminas, meu método era o de desenhar, com lápis de cor a imagem vista ao microscópio para identificar as formas de cada situação.

Um fato curioso em minha juventude era que eu não podia ver sangue, pois passava mal. Depois me curei disso e jamais ninguém conseguiu fazer um diagnóstico do que seria aquilo. Era um problema de ordem psicológica, talvez até me levando para o lado da medicina. E mais tarde, já como médico formado, passei a atuar principalmente em intervenções cirúrgicas, onde enfrentava o desafio de lidar justamente com muito sangue.

Todas as vezes que eu passava minhas férias acadêmicas em Ponta Grossa, atuava como assistente-mor na Santa Casa, já que eram poucos os integrantes do corpo médico e havia muito trabalho a ser feito.

Eu era um “coringão” que terminava de prestar assistência em um caso e já ia para outro; eu entrava em todas as seqüências das cirurgias e ai tomando gosto, adquirindo autoconfiança ao ver como é que se faziam aquelas suturas de cirurgias com anastomoses, por exemplo, o que exigia habilidade técnica. Na área ginecológica, eu fazia tudo, principalmente histerectomia total e parcial, em uma época em que era comum existirem complicações no colo do útero, região preferencial para a incidência de câncer.

O professor Lauro Justos, de Ponta Grossa, era um grande obstetra e ginecologista e me deu muitas oportunidades para adquirir vivência prática, principalmente na Obstetrícia, permitindo-me assistir os seus partos e fazendo com que me inteirasse de todos os truques e técnicas que, muitas vezes, os casos exigiam.

Havia também o Dr. Antonio Schwanze, médico de família, obstetra e clínico geral; a esse médico devo muito pelas oportunidades que me deu na Santa Casa de Ponta Grossa, permitindo que eu auxiliasse em suas cirurgias e, pela sua bondade, cheguei a fazer visitas a seus pacientes em residências particulares.

O professor Dr. Mario Braga de Abreu, catedrático de clínica cirúrgica, era um homem enérgico, mas bondoso, também praticante da caridade. Trabalhava na Santa Casa de Curitiba. Foi considerado o “Bisturi de Ouro” do Paraná. Minha amizade com ele se consolidou e cresceu durante o curso de clínica cirúrgica, que nos deu oportunidade de maior aproximação e foi quando fiquei conhecendo sua bondade e interesse na transmissão de seus conhecimentos aos alunos.

O Dr. Orlando Moro, clínico e cirurgião, não era professor, mas ministrava seus conhecimentos praticando as suas cirurgias, ensinando-nos os cuidados necessários para que sempre se obtivesse êxito no trabalho em benefício do paciente. Auxiliei-o em muitas de suas cirurgias e recebi ensinamentos sobre anatomia da região operada, o que foi muito válido para a minha clínica. Sou muito grato ao Dr. Orlando Moro por isso.

MEU CASAMENTO

Casei-me em 05 de setembro de 1946, no mesmo ano em que iniciei o curso de medicina. Meu sogro nos cedeu uma casa que ele possuía próximo ao Campo Santo do bairro Água Verde, em Curitiba. Era uma casa de madeira relativamente grande para nós dois; Seu Angelin e meu pai a reformaram completamente e a dotaram da mobília que pertencera ao meu sogro. Eram móveis de imbuia, muito robustos, que ainda possuímos até hoje.

No início de nossa vida conjugal, a Leny trabalhava em casa como costureira – ela era exímia na máquina de costura, vazia vestidos lindos – e ainda lavava e passava nossas roupas, cozinhava e cuidava de mim – eu ia impecável para a faculdade, com paletó, gravata, camisa engomadinha e sapatos lustrosos. Toda minha vida fui mimado, meu Deus do Céu! Primeiro pelos meus familiares, depois pela minha esposa! Vivemos um período muito bom de nossas vidas em que havia um enorme entusiasmo, tanto dela quanto meu.

Devo confessar que a grande conquista da minha vida foi ter casado com a Leny. Ela foi e é a minha grande companheira. Eu já nem aceito aquele ditado que diz que “atrás de um grande homem existe uma grande mulher”. Leny não está atrás de mim, mas ao meu lado! E é nas horas difíceis que ela, inteligente, com toda a sua carga feminina, tem sido de uma prestatividade extraordinária. Eu não teria chegado até aqui se não tivesse a Leny para me amparar.

A PRIMEIRA FILHA

Em 1949, eu já estava no quarto ano de medicina, que foi bastante pesado, com professores muito exigentes, como realmente deve ser um curso dessa natureza. E foi justamente nesse ano difícil que a cegonha nos brindou. O que Deus determina é sempre bem-vindo – e é por pensar assim que abomino veementemente o aborto.
Nossa primeira filha – à qual demos o nome de Eleusa – veio ao mundo pelas mãos do professor e amigo Dr. Schwanze, na cidade de Ponta Grossa. Leny sofreu um pouco durante o parto, mas tudo correu bem. Assim antes mesmo de me formar, já éramos uma família.

A PERDA DE UM GRANDE AMIGO

No final do meu curso de medicina, estávamos autoconfiantes, achávamos que tínhamos devassado tudo o que podia ser desvendando em ciência médica, que íamos curar todo mundo, aquela disposição toda, característica da juventude. Mas não era bem assim. Meu colega Odilon Maciel ficou doente. Diagnóstico: Meningoencefalite tuberculose, que na época não tinha cura.

Aquilo foi uma lição, ao menos para mim, de que nós não somos os tais que pensamos ser, não somos infalíveis. Descobrimos de forma terrível que nossa medicina não era aquilo tudo que se falava. Perdi meu amigo Odilonzinho, pelo qual tinha uma grande afeição como se fosse um verdadeiro irmão.

Eu e o Odilon havíamos ganhado do Rotary Club um curso de cirurgia abdominal em São Paulo, dado por um rotariano de Guarapuava; mas não fomos. O Odilon foi internado e eu não fui ao curso porque queria estar presente dando apoio ao meu amigo.

A FORMATURA

Em dezembro de 1951 finalmente se deu nossa formatura, com baile, missa, toda aquela solenidade. Fizeram uma homenagem ao Odilonzinho, todos choramos. Foi uma festa estragada pela falta de recursos da medicina daquela época para salvar um futuro médico.



Vocês viram prezados ouvintes? Como esta linda parte da história da vida do jovem Fornazari foi bastante intensa e até melancólica e triste. Acredito que alguns de vocês até chegaram a sentir um aperto no coração, não foi? Bem, mas para compensar este momento de apreensão vou lhes relatar mais um dos “causos” contados pelo nosso medico “causista” que, por certo, irá alegrar este final de programa:

UM SANTO REMÉDIO

Em um outro caso, fui atender a uma senhora acamada que apresentava febre elevada. Atendi a paciente, dei a receita e fui embora. Voltei no dia seguinte e perguntei à mulher se ela tinha dormido bem aquela noite.
- Eu num pude dormi, pur causa do apareinho, dotor.
- Que apareinho? Perguntei.
- Esse apereinho de vidro que o sinhor ponhô bem aqui nu meu suvaco. Cuidei a noite intera pra morde num quebra ele. Mais valeu a pena, dotor! Que remédio bão esse que o sinhor me deu. Graças a esse apareio bençoado eu manheci curada!
E aí foi que eu notei que havia esquecido o termômetro debaixo do braço da mulher. E ela, coitadinha, ficou a noite inteira fazendo “mágica” para não quebrar o instrumento.
O “vidrinho” foi o santo remédio que a curou... O fator psicológico também ajuda no processo da cura.

Bem, meus prezados ouvintes, só nos resta agora, para demonstrarmos nosso grande apreço ao Dr. Fornazari, nos dirigirmos até a “Banca do Cavalim” e adquirirmos o livro MEDICO DE FAMÍLIA, pois além de termos um maravilhoso livro de cabeceira, estaremos contribuindo para uma meritória campanha social. Vale a pena. Até o próximo sábado.


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