Matérias / Irati de Todos Nós

19/04/12 - 15h34 - atualizada em 19/04/12 às 16h11

Médico da Família VIII

O Programa Irati de Todos Nós é idealizado por José Maria Grácia de Araújo e vai ao ar pela Najuá AM, todos os sábados, às 14 horas

 

Pois é, doutor Fornazari, até que em fim chegou a hora do senhor falar um pouco sobre a sua atuação na política do nosso município. Todos sabemos que sua passagem pelo legislativo e executivo de Irati foi de muitas conquistas e realizações.

- Sobre este assunto, Zé Maria, quem deveria estar falando é o próprio povo de Irati, mas como eu sei que, muitos daqueles que foram beneficiados com as nossas grandes conquistas daquele período, assim como eu próprio, já não estamos mais por aqui. Por isso, delego a você a responsabilidade de relatar a teus ouvintes este importante capítulo da minha passagem por Irati, e que por sinal, foi bastante longa, pois fui iratiense por mais de 50 anos.

Eu aceito esta incumbência, mas, nem os meus ouvintes, nem eu vamos aceitar sua recusa de, pelo menos, nos contar os causos deste capítulo. Como, também, vou lhe pedir que hoje, em meu nome e em nome dessa Emissora, o senhor dirija nossos cumprimentos a todos os especiais ouvintes que nos acompanham por esse Iratizão a fora.

Deixa comigo, Zé Maria!:

- A todos vocês, iratienses, de todos os cantos e recantos deste maravilhoso rincão paranaense, chamado Irati, nosso Rio de Mel.

A todos vocês, que tive ou não, a oportunidade de conhecer e atender como MEDICO DE FAMÍLIA que fui, e nas suas faltas, quero desejar a seus descendentes, filhos, netos ou bis-netos, que estejam todos gozando de ótima saúde, como muita paz, amor e CERVEJA PRETA, em seus lares e em seus corações.

Oh! Dr. Fornazari, não entendi muito bem! Desejar aos nossos ouvintes, muita paz e amor, eu concordo, mas a CERVEJA PRETA, onde entra em tudo isso?

Bem, Zé Maria, se eu inclui a CERVEJA PRETA neste meu cumprimento inicial, foi para preparar o espírito de todos os seus ouvintes para o “causo” que vou contar a seguir, pois tudo aconteceu assim:

- Um desse filadores de consultas, me abordou na rua e foi logo tascando:
_ Dotor Fornazario, é verdade que CERVEJA PRETA faiz o leite dos peito das muié armentá?

- O que eu sei meu amigo, é que e cerveja mauzebier é uma bebida muito energética, pode até ser que influa na lactação das mulheres após o parto, mas a ciência ainda não confirmou nada disso. Ele, mal e mal, me escutou e foi embora.

- Eu já tinha até esquecido do ocorrido naquele encontro, quando após uns quatro meses me encontrei novamente com o vivente, que me disse com uma cara de quem estava muito decepcionado.

- Dotor, o sinhor é um grande mintiroso!!!

- Eu, mentiroso? Por que?

Lembra que o sinhor me disse que CERVEJA PRETA juntava leite nos peito das muié? Puis agora a minha muié está inté viciada na dita cervejinha preta e não armoça se num tive um marzibirra na mesa. I pra piora o causo, eu inda tenho de cumpra leite di lata pra meu fiô, purque a minha muié, cadê de tê leite nos peito!!!

Minha nossa, dotor Fornazari, como é que isso foi acontecer. Mas tenho certeza que o moleque, mesmo sem a amamentação materna, se criou muito belo e formoso. Não é mesmo.

Foi sim, Zé Maria, Foi sim! Mas agora esta na hora de, como você me prometeu, contar para teus ouvintes a parte política da minha história em Irati. Vou ficar aqui, só escutando.

Que responsabilidade o senhor me deu, doutor Forzazari, mas como não sou de fugir da raia, vou cumpri-la da melhor forma possível.

Nos idos das décadas de 50, 60, 70, ou até um pouco mais adiante, toda a classe médica iratiense era engajada em todas as atividades sociais do município e com isso, com muita freqüência acabava, também, se envolvendo nas questões políticas a fim de ajudar a conseguir melhores condições de vida para a comunidade.

Foi, desta forma, que muitos médicos se notabilizaram e se elegeram para cargos do nosso legislativo e executivo. Não é mesmo Dr. Fornazari?

 

 

- Você é que está dizendo, Zé Maria, hoje eu sou só teu ouvinte. Vá em frente!

Que roubada, o senhor me colocou, mas vamos lá!

Bem, o amigo Fornazari, pelos motivos já expostos, logo veio a se eleger vereador e atuou com muita eficácia, em nossa Câmara, durante dois mandatos consecutivos, de 1963 à 1972, oportunidade em que, se dedicou mais profundamente as áreas da Cultura e da Assistência Social. Foi Presidente da Câmara e se empenhou muito na aprovação da construção de um novo hospital para Irati, assim como, pela construção da Agrovila, da Lactisul e do fortalecimento nossa fruticultura. Todos projetos concretizados.

 

 

E assim nasceu a Lactisul.

Eduardo Dlugosz e Stefano Paramustchak, tiveram a feliz idéia de entrar em contato com a Cooperativa Central de Lacticínios do Paraná – BATAVO – em Carambeí. Os diretores da Batavo, na época, eram os holandeses Jan de Jeger e Dymphus Vermeulen, que se interessaram muito pelo projeto e se colocaram à disposição do grupo de Irati, para uma possível parceria.

Iniciaram-se, então, os trabalhos de organização que foi comandado pelo incansável Julinho Wasilewski. O senhor Julio tornou-se líder do projeto após ter sido considerado, por todos, o iratiense mais apto para o cargo. E segundo me relatou o Doutor Fornazari, foi bem assim que surgiu a Cooperativa de Produtores de Leite de Irati – Lactisul.

 

 

Estou indo bem, doutor Fornazari? Posso continuar relatando a história da sua atuação política, aqui em Irati?

Claro que pode, Zé Maria, você até que está indo mais ou menos, e como eu hoje estou com a garganta meio doida, vou deixar por tua conta os causos de hoje.

Sabem, meus amigos ouvintes, não é bem pela alegada dor de garganta que o Doutor me passou a responsabilidade dos relatos do programa de hoje. É que ele é muito modesto e não estaria muito a vontade de falar sobre as suas realizações políticas no período em que foi vereador e prefeito de Irati. Por isso ele está ali, sentadinho, no canto só ouvindo a nossa prosa. Mas, se o senhor quer assim, então, vamos em frente:

DOUTOR FORNAZARI – Prefeito de Irati

A nossa comunidade, aos poucos, foi precebendo a grande preocupação que o doutor Fornazari tinha pelas questões do no nosso município, principalmente, por aquelas relacionadas a Saúde Pública da nossa população. E foi assim que muitas pessoas, da cidade e do interior, o convocaram para disputar as eleições para a prefeitura de Irati.

Em sua campanha, Fornazari foi ajudado por muitos de seus amigos, dentre os quais ele cita inúmeras personalidades iratienses, tais como: Pedro Fillus, Ademar Araújo, Agostinho Zarpellon Júnior, Mieczyslaw Michalak, Bernardo Rebesco, Julio Wasilewski, Ravilson Chemin, Fernando Pohl, João Mansur, Carlos Thoms, Aprile Trento, entre outras.

Espera aí, Zé Maria! Não foram só esses importantes cidadãos que me auxiliaram, mas também, as parteiras, as professoras, as enfermeiras, todas elas foram “cabos-eleitorais” da minha campanha. Todo esse apoio era de graça, era inspirado na confiança que tinham em mim.

Eu sabia que o senhor não ia agüentar muito tempo, sem dar o seu “pitaco” na nossa prosa. Mas fique a vontade, doutor, afinal a história que estamos contando é a sua Historia.

Se é assim, se você não se importa mesmo, Zé Maria, deixa eu falar mais um pouco sobre esse assunto.

-Em novembro de 1972, fui eleito prefeito da cidade, com uma excelente votação, pois a população já conhecia muito bem o meu trabalho, minhas intenções e meus princípios como cidadão e como profissional.

A minha administração contou com o apoio de uma equipe muito eficiente. Meu vice era meu amigo Tadeu Duda, um companheiro para o que desse e viesse, dotado de bom senso e de um coração muito generoso. O Bráulio Zarpellon foi o meu secretário e, também, provedor do hospital. O Bráulio conhecia profundamente as leis que regiam o município, me proporcionando, com isso, total segurança neste particular, além de ter uma grande habilidade na redação de correspondências e documentos oficiais. Eu tive muita sorte, Zé Maria, pois todos aqueles que me serviram durante a minha gestão como prefeito de Irati, deram muita segurança e agilidade à minha administração.

 

 

Mas, a sua gestão foi marcada, também, por muitas outras realizações de vulto, não é mesmo doutor Fornazari?

- É por isso que eu não queria falar sobre mim mesmo, principalmente no que diz respeito a minha atuação política em Irati. Teus ouvintes vão achar que eu estou me vangloriando de tudo aquilo que era minha obrigação fazer. Mas já que você esta me dando “corda” eu vou em frente.

- Através das minhas campanhas de vacinação tínhamos conseguido debelar as principais doenças que flagelavam a nossa comunidade. Entretanto, permaneciam ainda as moléstias diretamente relacionadas com a má qualidade da água distribuída no município. Então, Zé Maria, uma das minhas primeiras medidas que tomei como prefeito eleito de Irati foi a de solucionar o problema da água que a população consumia.

 

 

Naqueles anos, em Irati já havia o Departamento de Água e Esgoto (DAE), que não possuía verbas para quase nada. A Prefeitura fez, então, um convenio com o DAE, oferecendo-lhe matérias, mão de obra e uma parcela do ICMS do município, que se destinaria à construção de uma nova adutora, com tanques para o tratamento da nossa água com cloro. A obra ficou pronta rapidamente e começou a funcionar regularmente, passando, então, Irati a ter uma distribuição mais de segura de água tratada. Entretanto o DAE foi extinto e o sistema de saneamento foi encampado pela SANEPAR. E, aí, então, a água que Deus nos deu gratuitamente, límpida e saborosa para saciarmos nossa a sede, passou a ser comercializada a preço de ouro, com intuito somente de se auferir lucros. Me parece, no entanto, que atualmente isso vem, gradativamente, mudando para melhor, pois, pelo que me informaram, o Governo do Estado, em 2003 fez com que a SANEPAR iniciasse o fornecimento de água tratada, ás famílias de baixa renda, a um custo simbólico. Uma iniciativa louvável, Zé Maria.

Me lembro, muito bem, doutor Fornazari, que desde o início o senhor esteve ligado a iniciativa de se construir em Irati um novo Hospital. O senhor poderia nos falar sobre isso?

 

 

- Pois, Zé Maria e, também, todos os ouvintes que nos estão acompanhando, ainda na gestão do meu colega Ildefonso Zanetti iniciou-se as fundações do Hospital Regional de Irati. Porém logo que se terminou esta primeira etapa dos trabalhos, por motivos políticos no Departamento de Orçamentos do Estado do Paraná, as obras foram interrompidas por, aproximadamente, cinco ou seis anos. Mas, assim que recebemos autorização para darmos continuidade aos trabalho, convocamos a comunidade, as representações políticas e a industria e o comércio e criamos uma comissão responsável pelo acompanhamento das obras, presidida pelo meu amigo Athis Fernandes da Silva. O Ariosto Pohl foi escolhido como primeiro provedor do hospital e logo deu continuidade as obras. O segundo provedor, que atuou por dois mandatos consecutivos, foi o Bráulio Zarpellon e em seguida o Leondy Zarpellon, foi o terceiro provedor. Estes três cidadãos exerceram seus mandatos, ainda, antes da inauguração do hospital.

Não poderia deixar de citar, também, alguns outros importantes iratienses que nos apoiaram nesta empreitada, são eles: O Tadeu Duda, o José Duda Júnior, o Antonio Coltro, o Pedro Fillus, o João Stoklos, o Ravilson Chemin, José Flores, Wilson Trevisan, Carlos Thoms, Estevão Benato, Olavo Santini, Edgard Gomes, Alfredo Gomes, Admar Araújo, Agostinho Zarpellon Júnior, e muitos e muitos outros, aos quais peço desculpas, se por ventura, não lembra-los neste momento.

Conseguimos, ainda, através do deputado João Mansur, importantes verbas, o que nos permitiu o término das obras. Mas, tem mais ainda! Durante a construção recebemos grande ajuda, em materiais, do Wladiskau Kasprzak e do Ninito Tomaz.

 

 

Mas, nem tudo ainda estava resolvido, surgindo um novo desafio. Como não havia mais verbas municipais, para equipar o novo hospital. Recorremos ao então governador do Estado, Emílio Hoffmann Gomes, que, com o seu prestígio, conseguiu que tivéssemos uma audiência com o presidente do FUNRURAL – Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural, na qual solicitaríamos ajuda para a aquisição dos materiais e equipamentos que necessitávamos. Formamos uma comissão e viajamos para o Rio de Janeiro. Mas, é bom que se diga, Zé Maria, todas as despesas dessa viagem correram por nossa própria conta.
Dois meses depois dessa nossa visita, chegaram a Irati, dois caminhões carregados com os equipamentos e materiais solicitados e, de quebra, uma ambulância novinha em folha, que nem havíamos pedido.

Minha esposa, a Leny, presidiu uma campanha para arrecadação para arrecadação de algumas outras pendências, tais como roupas de camas, cortinas, eletrodomésticos e utensílios de cozinha. Ela foi muito bem sucedida.

Com o hospital concluído e aparelhado, iniciamos, então, o nosso trabalho médico, dando assistência à população de Irati e, em especial, aos trabalhadores rurais. E, assim, Zé Maria, como eu havia prometido á sociedade iratiense, ali estava ele, o nosso tão sonhado HOSPITAL REGIONAL de Irati.

Emocionante, doutor Fornazari! E o senhor que nem queria falar hoje, acabou por nos dar uma aula de altruísmo e amor ao próximo, que nos comoveu a todos.

E, para que não fiquemos todos, com essa cara de “chororó”, eu lhe peço que nos alegre com mais um de seus causos.

Pois é, pessoal, como eu sou produto da mistura do sangue espanhol com italiano, mesmo que não possa, acabo falando até pelos cotovelos. E para atender ao pedido do meu entrevistador, Zé Maria, lá vai o causo de encerramento do programa de hoje: RELÓGIO CUCO DESASTRADO.

Um cidadão, amigo meu, estava acostumado a beber uns tragos a mais. Uma dessas noites aí, ele jantou, deu um tempinho prosiando com a mulher e, quando apareceu a oportunidade, logo tascou: Oh, muié, agora que já prosiemo um poço, eu vô sái. Mais as deis hora eu to de vorta, meu amor.

Há! Num credito, sê vem não, ce é tratante, mintiroso i sem vergonha.

Vorto sim! Vô prova procê, qui num so nadica disso aí, muié!

Às duas horas da matina, o desgramado entrou e fez aquele barulhão, tentando tirar as butinas e tropeçando nos móveis. Ao tentar subir a escada, que levava ao quarto do casal, tomando muito cuidado para pisar devagar na velha escada de madeira, que não lhe obedeceu e foi logo anunciando – Nhéc...nhoc...nhéc... foi quando o cuco do relógio cantou por duas vezes, anunciando que eram duas horas da madrugada. O vivente tremeu na base, xingou o relógio e começou a imita-lo, cantado mais oito vezes, para inteirar as deis horas, que era o horário que havia prometido chegar. Entrou no quarto em silêncio e deitou-se, ao lado da sua mulher.

Pela manhã, a sua cara metade, enquanto preparava o café, disse ao atrasadinho:

Veio! Ce tem de manda ruma o relógio cuco.

Pur que muié, ele instrago?
Inté acho que sim, puis onte, quando ocê chego, ele feiz uma barulheira danada, deu um arrotão bem arto, canto duas veiz, disse uns palavrão e dispois, acabo tocando mais umas oito veiz i cuma vois bem roca, que mais parecia ocê, quando ta bêbedo.

Oh! Dotor Fornazari, é por isso que eu nunca tive relógio cuco em minha casa, depois que casei, pois o danado é dedo duro que só vendo.

Doutor, acredito que com mais um ou dois programas mais, estaremos encerrando esta maravilhosa coletânea que esta nos inteirando da sua história, assim como, também, por que não, da história de muitos outros iratienses do passado que tomaram parte dela. Espero poder contar consigo, neste próximo sábado, sem dor de garganta, pois são as suas palavras que enriquecem o nosso programa. Até o sábado que vem. 

  

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